Anastácia e o Espectro

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Você encontra a pessoa mais linda que já viu. Descreva-a e como você se sente ao vê-la.

O Führer está morto! O Führer foi assassinado! Deu fim à própria vida! Fugiu do país!, eram os comentários controversos pelas ruas de Berlim.

             A mão de Heinrich sangrava profusamente — um fluxo demasiado intenso para um corte tão pequeno.

            Ao sair da escola, viu um grupo de homens (imprudentes ou corajosos, não sabia defini-los bem) causando alvoroço numa praça do centro. Alguns cidadãos estavam em júbilo com a suposta notícia, outros temerosos. Os soldados do Partido Nazista tentavam contê-los e, buscando fugir da confusão, Heinrich caíra no chão e se cortara. Aquilo não seria nada para qualquer outro jovem de sua idade; a cicatriz até seria motivo de orgulho. Para um hemofílico, porém, era preocupante. Ele tentava ao máximo esconder sua condição e este foi seu primeiro acidente em muito tempo.

            Correu pelas ruas apinhadas de soldados que se esforçavam para controlar o motim; quanto mais se distanciava, mais abafados os sons se tornavam. Ao longe, pensou ter ouvido um tiro. Sabia que não devia correr, já que em sua condição qualquer pequeno ferimento podia ser grave; mas o medo, este sentimento cuja ausência ele parecia desconhecer, o incentivava a correr até as pernas doerem. De repente viu-se numa ruazinha estreita com casebres e cortiços muito antigos. Apesar da desolação, os moradores pareciam se esforçar para manter o lugar atraente, seja com uma pintura alegre nas portas de madeira ou com vasos de flores nas janelas quebradas. Por mais inútil que parecesse, qualquer tentativa de estimular beleza e esperança era válida naqueles dias. Heinrich entrou na última casa da rua, ofegando.

            Era um cômodo pequeno com piso e teto de madeira. Nas paredes brancas de cal pendiam quadros toscamente pintados, mas agradáveis pelas cores suaves. Pequenas esculturas de argila se amontoavam num canto, e em outro se destacava uma estante com diversos livros surrados. Duas camas simples ficavam próximas à grande janela com cortinas rendadas. Heinrich dobrou o corpo com as mãos nos joelhos para retomar o fôlego. Sua casa, com todas as bugigangas e excentricidades de sua mãe, sempre o fazia se sentir protegido.

            A mulher entrou pelos fundos e ficou atônita ao ver o uniforme da Juventude Hitlerista coberto de sangue.

            — Mein Gott!

            — Não é nada, mutti. Já está estancando.

            — Se ao menos Rasputin estivesse aqui para salvá-lo, para curá-lo como fez tantas vezes com meu irmãozinho Alexei! É minha culpa que você tenha herdado essa doença. Venha, Gregório Rasputin, e salve o filho de sua amiga Anastácia, o neto do último czar da Rússia!

            — Você não é Anastácia Romanov!

           — Claro que sou. Sou a única sobrevivente do massacre que dizimou a Família Imperial e me refugiei aqui. Meus pais eram Nicolau e Alexandra. Você tem a mesma doença no sangue que meu irmão mais novo teve. Falo russo!

            — Ter a mesma doença do czaréviche é só coincidência, e aquilo que você fala é uma língua inventada.

           — Sabe qual é a maior prova de que falo a verdade, filho? Não busco publicidade como as impostoras que dizem ser eu. Estou aqui apenas vivendo e tentando esquecer o que fizeram à minha família.

              — Seu nome é Heidi, não Anastácia — insistiu ele, aborrecido.

            “Seu sofrimento foi tão grande que a enlouqueceu, mutti. Mas eu te amo e irei cuidar de você”, pensou Heinrich com um suspiro de cansaço, desenrolando sua mão da camisa manchada de vermelho. Há dois anos o pai do garoto falecera devido a uma bomba que devastou uma cidade próxima, e desde então sua mãe tornara-se Anastácia à espera do monge louco.

            Heidi dava aulas de Arte e História para as crianças da vila até que o regime atual proibira qualquer educação informal, obrigando seus alunos a freqüentarem escolas apropriadas. A imaginação daquela professora gentil era poderosa, e a História da Rússia — em especial a história de certa família imperial que fora massacrada por soldados bolcheviques — sempre lhe fascinara. Autoridades ficaram sabendo dos temas peculiares que Heidi lecionava e, numa noite gélida quando Heinrich tinha seis anos, dois soldados apareceram à porta para um educado conselho: nada de macular as mentes das crianças alemãs com História Russa. Na ocasião, Heinrich apontara para o capacete de um dos soldados e perguntara se era um penico sujo. O homem lhe dera um chute em uma das pernas que o fez cair e cortar o braço. Sua mãe saíra desesperada à procura do médico enquanto os soldados iam embora. Foi uma de suas piores hemorragias, mas conseguiu se recuperar.

        — Rasputin! Tentaram se livrar dele porque era poderoso e santo! — exclamou Heidi (ou Anastácia) animada, como se estivesse diante de alunos ávidos para ouvirem o que tinha a dizer sobre Rasputin e seus estranhos poderes místicos. — Curava qualquer doença, dava conselhos para meus pais. Tenho certeza de que ele também não morreu e está à minha procura. Ele irá nos achar e poderá curá-lo, filho; talvez até consiga trazer seu pai de volta à vida. Você conhecerá o poder que emana daqueles olhos: parecem saber exatamente quando e como coisas terríveis irão acontecer.

           Subitamente, enquanto sua mãe continuava naquela profusão de palavras sem sentido, Heinrich teve uma estranha sensação. Era como se sua vulnerabilidade e loucura tivessem erguido o véu do tempo e o filho a visse pela primeira vez. Naquela perspectiva, ela voltara a ser a mulher bonita que era antes de seu pai morrer: os cabelos louros eram espessos e longos, não ralos e descuidados; a pele do rosto era lisa e firme, os olhos azuis eram vivos e atentos, não dois poços escuros circundados por olheiras e pés-de-galinha. O sorriso voltara a ser o que devia ser: branco e iluminado como manhã de primavera. Agora, os lábios dela só emitiam insanidades de uma vida que não viveu para disfarçar a tragédia do presente. Mas, ainda assim, amou-a profundamente naquele momento, porque teve certeza que ela era a pessoa mais linda que já vira e que haveria de ver por toda sua vida... Caso tivesse a sorte (ou azar?) de viver por mais algum tempo.

— O próprio Hitler empalideceria diante de Rasputin — sussurrou Heidi em tom de assombro.

            — O Führer morreu, é o que estão dizendo — disse o menino, e os olhos daquela que pensava ser a Grã-Duquesa perdida se arregalaram; não de tristeza nem de alegria, mas de medo. Era o fim da guerra ou o início de outra ainda pior?

         — Rasputin irá nos achar — ela garantiu, aproximando-se da janela. E ali ficou por muito tempo para aguardar, sabia Heinrich, pelo seu fantasma salvador que não existia.
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