Verdadeira Beleza

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Desafio Dos Três:
Você encontra a pessoa mais linda que já viu. Descreva-a e como você se sente ao vê-la.


"Andando pelas ruas de São Paulo é fácil encontrar pessoas esteticamente belas. Simétricas, proporcionais, altas, magras, elas se encaixam nos padrões de todas as formas possíveis. Com seus cabelos esvoaçantes e saltos que fazem clac-clac no sujo concreto, elas se destacam por entre as multidões de cidadãos, e são, para muitos, como gotas de cor nessa cidade tão cinza.

São, para mim, apenas outro tom desse matiz acromática.

Talvez eu não saiba julgar o que é belo ou não. Talvez o que tenho para lhe contar seja inútil e patético, apenas a memória de uma velha tola. Entretanto, para mim, a verdadeira beleza é rara nesse mundo, e quando vista, deve ser compartilhada.

Pela primeira vez eu andava de metrô e ela estava sentada no banco do trem, na minha frente. Não havia nada de especial naquela garota — uma jovem como outra qualquer, com seus fones brancos escondidos pelos longos cabelos e uma touca de lã que era, na minha opinião, a touca mais feia que já vira na vida. Porém, de alguma forma, o jeito como ela mexia nos cabelos meio embaraçados, aquele gorro velho completamente torto na sua cabeça...naquele momento ela era adorável.

Lembro de suas roupas escuras, meio gastas e desbotadas, o tênis sujo, e as unhas pintadas de azul com o esmalte lascado. Por muito tempo a observei, e só conseguia pensar no quão diferente ela era para mim, tão oposta às pessoas que eu conhecia. Minha mãe me segurava com força no colo, suas mãos finas e brancas apertando minha barriga, e as compridas unhas vermelhas me machucavam cada vez que ela se mexia com os movimentos bruscos do trem. Seu perfume forte me enjoava e, em um momento, fiz uma careta ao sentir o cheiro.

Foi então que ela olhou para mim. Verdadeiramente olhou para mim, como nenhum adulto jamais havia olhado.

Jamais me esquecerei daquele sorriso-quase-risada. Seus olhos castanhos eram tristes, e no canto brilhavam gotas de lágrimas que eu não vi cair. Rapidamente ela as enxugou com os dedos finos e tortos, e voltou a atenção para mim. O nariz enrugava quando sorria, os lábios sem cor esticavam e empurravam as grandes bochechas para cima, criando montanhas cor de rosa em seu rosto.

Eu poderia falar das linhas que começavam a aparecer no canto dos olhos semicerrados, ou da pinta-bolota no canto do seu queixo, e até mesmo de uma pequena manchinha vermelha no meio da testa. Eu poderia falar dos cabelos escuros e bagunçados, do anel barato que manchava seu dedo e até mesmo da tatuagem torta de estrela que ela tinha no punho direito. Nada disso importa.

Em seu olhar eu vi amor. Pela primeira vez na minha curta vida alguém havia me olhado e realmente me visto!

Aquela completa estranha estava fazendo caretas para mim, me imitando! Ri, e escondi a risada com as minhas pequenas mãos gordinhas. Senti os braços de minha mãe apertar ao redor da minha barriga e a encarei com raiva. Ouvi a garota rir do meu gesto, um som melodioso, como uma canção, e voltei minha atenção para ela.

Ela pendeu a cabeça para o lado, mostrou a língua para minha mãe que, distraída com o jornal, não viu, e então piscou para mim. Ri alto, e ela sorriu de novo. Sorri também, um tanto tímida, corando de vergonha.

Na parada seguinte, ela se levantou. Estiquei uma mão para tocá-la, queria ter certeza de que aquele ser humano que havia me notado era real. Uma mão quente se fechou ao redor da minha, e ela sussurrou “tchau”. Antes de sair, se virou para trás e pude ver seu sorriso uma última vez, seu olhar carinhoso sem um traço de tristeza.

Até aquele dia, eu não conhecia carinho ou amor. Não posso reclamar, minha infância foi boa, e foram poucas as vezes que entrei em um metrô novamente. Porém, se eu pudesse escolher, teria trocado todas as minhas bonecas e casinhas, meus jogos de tabuleiro e fitas de desenho por mais sorrisos como aquele, por mais pessoas belas como aquela garota.

Nunca mais a vi. Ainda hoje me pergunto o que aconteceu com ela, porque ela estava chorando, se deu tudo certo no final. Creio que jamais saberei a resposta. Seja como for, queria apenas poder dizer que serei eternamente grata por ela ter me ensinado — com um sorriso e um olhar — o verdadeiro significado de beleza. Esteja onde estiver, para mim, ela sempre será a mais bela de todas."
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