Desafio Para Um: Use uma foto (tirada por você) como inspiração para escrever. Mínimo de 500 palavras. Sem máximo.
"Mariana
corria de um lado para o outro da calçada, suas sapatilhas cor de rosa quase
escapando de seus pequenos pés. Sua avó a observava com um misto de carinho e
preocupação no olhar, rezando para que essa empolgação não durasse a noite toda.
Aquele
dia definitivamente tinha sido feito só para Mariana. O céu estava azul e sem
nuvens, do exato jeito que a garota mais gostava. Passara o dia andando na rua
sem olhar para frente, seus olhos e dedos sempre voltados para o céu, prontos
para seguir o trajeto de um avião ou o voo de um pássaro. A garotinha mal
olhava para frente, e coube a sua avó guia-la por entre as árvores do parque, e
evitar que trombasse com todos os visitantes. Para melhorar seu dia perfeito,
tinha sarado do seu resfriado há duas semanas e pôde tomar não um, mas dois
sorvetes!
Porém,
o sol insistiu em se por, o parque em fechar, e sua avó em voltar para casa.
Mariana encarou o céu azul escuro e fez uma careta, cansada daquela imensidão
sem brilho.
“Vó.”
Chamou, puxando a barra da saia da sua segunda pessoa favorita no mundo.
“Já
estamos chegando, Mari.”
“Não!
Não é isso.” Responde e parou de caminhar. Ouviu o suspiro cansado de sua avó,
e esperou pacientemente enquanto ela se agachava para conversar. Mariana não
entendia porque os adultos sempre faziam isso, mas achava melhor não
questionar.
“Qual
o problema, Mari?”
“Por
que não tem estrelas aqui?”
Ouviu
um segundo suspiro e esperou — não tão pacientemente — pela resposta,
balançando seus braços de um lado para o outro e observando o céu acima,
tentando contar as poucas estrelas que via aqui e ali.
“Temos
estrelas aqui sim, só não podemos vê-las, querida.”
“E
por que não?”
“Porque
temos muitas luzes aqui embaixo, e elas acabam brilhando mais do que as
estrelas lá em cima.”
Franziu
o cenho, olhando para os prédios, pessoas, carros e objetos variados ao seu
redor. A explicação de sua avó não fazia muito sentido na sua cabeça. Os
prédios estavam iluminados, é verdade, assim como os carros e seus faróis, mas
tudo tinha um distinto tom de cinza, tudo chato e triste. Não conseguia
compreender como que a luz cinza podia ser mais intensa que o branco das
estrelas brilhando no céu azul.
“Vó.”
Chamou de novo, contendo o riso ao ouvir o terceiro suspiro da noite. Talvez
teria sido melhor chamar sua avó antes de ela levantar do chão.
“Sim,
Mari.”
“Ainda
tem giz pra desenhar?”
“Tem,
mas nós já brincamos de aulinha hoje, lembra? Sua mãe não vai gostar de ver
você levar os brinquedos sujos para casa.”
“Não
é para isso!” Balançou a cabeça com força, seus cachos castanhos ficando ainda
mais revoltos. “Vou fazer estrelas.”
“No
céu?” Ela perguntou e riu. Mariana não entendeu o motivo da graça, era óbvio
que não tinha como desenhar lá no alto, mas era melhor ver sua avó rindo do que
suspirando, então não comentou nada de novo.
“Não.
Posso só pegar o giz, por favor?” Por favor sempre funcionava.
Pegou
suas cores favoritas: verde das árvores, rosa das nuvens no pôr do sol, e azul
do céu num dia quente de verão. Escolheu o quadrado maior e mais cinza que
encontrou por perto e correu até ele, os três gizes na mão.
“Mariana!
Mariana, não desenhe na rua! Mariana! Olhe seu vestido, já está todo sujo!”
Ignorou
sua avó. Será que ela não sabia que o vestido ficaria limpo de novo depois de
lavar? Tudo bem, isso não importava. O que importava é que Mariana queria ver
estrelas no céu escuro da cidade, mas não podia. Importava que as luzes dos
prédios e carros não a alegravam como a luz do sol no céu azul. Importava que
tudo estava muito cinza, e Mariana não gostava de cinza.
Gostava
de azul, verde e rosa. Gostava do brilho do sol e das estrelas. Mas percebeu,
naquela noite, que gostava mais ainda de poder criar seu próprio céu, e
desenhá-lo aonde quisesse. E descobriu, assim, que não precisava sentir falta
das estrelas a noite. Quando tudo estivesse cinza e sem graça, faria seu
próprio céu, com as estrelas mais brilhantes do mundo, e de todas as cores que
quisesse."

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