Margarida

By | 04:37 Leave a Comment
Você encontra a pessoa mais linda que já viu. Descreva-a e como você se sente ao vê-la.


        A PROBABILIDADE de eu estar na varanda numa tarde livre, deitada no piso gelado com um cobertor sobre as pernas e, se disposta a me levantar para fazer, uma xícara de café preto — gosto de imaginar que sempre estará frio, embora viver num país tropical não me dê muitas oportunidades e sempre acabe úmida, seminua e extremamente irritada —, é bastante próxima de cem. Também queria dizer que meu passatempo é ler uma enorme quantidade de livros, destes que sempre me aguardam em algum canto e cujas simples aparições me deixam culpada; mas na maioria das vezes apenas fecho os olhos e imagino coisas ou, como agora, tento vislumbrar um pedaço do mundo através das grades espaçadas de metal.
        Há uma singela diferença entre imaginar e espiar. É divertido inventar, ponderar e refletir sobre as mais diversas situações, aquelas que se misturam com a música e te levam para lugares encantadores. Ponto para a imaginação. Mas falta uma coisa que faz toda a diferença: o elemento surpresa. A realidade, por mais entediante que seja, ainda consegue nos pescar através das pequenas coincidências.
        E naquela varanda, num daqueles dias em que a auto-piedade invade seu organismo como um parasita e você já está de saco cheio de si mesma, lutando contra a vontade de se socar... ali foi onde a vi pela primeira e última vez.
        Meu primeiro impulso foi de saltar aquele andar inteiro, desfazer a distância entre nós e mergulhar o nariz na curva do seu pescoço. Eu não sabia se a vontade maior era de tocá-la ou ficar imóvel e prender a respiração com medo de assustar, como a um passarinho. Por um momento eu só fiquei lá, atônita — aquela moça, uma moça qualquer, passando naquela rua como um carro alegórico, e outra qualquer observando cada movimento seu atentamente.
        Levantei e me apoiei com os cotovelos na mureta da varanda. Ela levantou a cabeça, seus olhos escuros fechando-se levemente à pungente luz do sol, a flor amarela em seu cabelo brilhando. E então sorriu: um sorriso que pra mim era tão cheio de significados quanto a Caixa de Pandora e pra ela era possivelmente apenas um exercício aleatório de simpatia. Talvez ela estivesse mesmo de saco cheio, voltando de uma ida à lotérica para pagar contas. Talvez ela só quisesse chegar em casa (será que morava perto?), tomar um banho gelado e bater um pratão de comida.
        Eu não sei. Mas ela estava me vendo e eu fiquei extasiada. Aquilo era ridículo.
        Só me restou observá-la enquanto se afastava. O vestido florido meneando ao simples toque da brisa, a pele cor de chocolate, o fulgurar das argolas de metal em sua orelha, um vislumbre do chinelinho de dedo e ela tinha virado a esquina. Não sei dizer o que estava esperando, mas o momento acabou. Sem eu dar oi e chamá-la para entrar, o que seria estranho, ok, mas que diabos eu poderia fazer? Eu nem sabia o que eu queria.
        Suspirei e pensei, enquanto me apoiava na porta da geladeira aberta e considerava o lanche da vez, que não tinha sequer um nome para associar à memória.


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